Pergunte a você mesmo
Olá. Decidi que vou fechar este blog, está velho demais e eu pretendo fazer algo novo e especial, com cheiro de carne na chapa, de mulher gostosa, de frutas frescas, de ovo com pimentão e cebola, de sorvete de pistache com cobertura de pistache e flocos de pistache cristalizados... Pode não parece, mas todos esses cheiros são idênticos pra mim.
Mas é claro que eu não ia fazer um post de despedida sem que fosse algo sensacional, lindo, maravilhoso e deliciosamente suculentamente gostosamente saborosamente instintivamente (errei, foi mal) instigante. Então, entrevistarei a mim mesmo!
Pode parecer idiota, mas é extremamente lógico. Quem melhor para rebater os seus argumentos do que você mesmo? Além do mais, nenhuma repórter gostosa veio me entrevistar, por isso fiquei sem opções. Ok, estão preparados? Acompanhem mais uma matéria investigativa e bizarra de Leozin:
Olá. Alguém já disse que você é muito sexy?
É a coisa que eu mais ouço na vida.
Ok, eu sei que é mentira.
Então não pergunta.
Enfim. Você está escrevendo um livro sobre o passado dos índios brasileiros. O que você acha da situação atual dos indígenas no Brasil?
Para responder isso acho que a melhor opção é ouvir dados reais. Vou colá-los aqui.
"Nossos povos nativos de donos desta terra, que vivem em harmonia com a natureza: tupi, xavante, tapuia, caiapó, pataxó e tantos outros. São mais de 40 mil anos em que germinaram mais de 990 povos com culturas, com línguas diferentes, mas apenas em 500 anos esses 999 povos foram reduzidos a menos de 220. Mais de 6 milhões de índios foram reduzidos a apenas 350 mil.”
São dados chocantes.
Os dados não chocam muito. O que choca é saber que a cultura indígena foi destruída de tal forma que hoje praticamente todas as expressões importantes em Tupi-guarani foram aportuguezadas. Se um índio tivesse que ler o que os jesuítas escreveram para aprender sua língua ele provavelmente falaria errado, já que a pronúncia foi distorcida pelos caracteres dos filhos da puta dos conquistadores portugueses.
Não fale palavrões durante a entrevista, porra!
Ok, sua bicha.
Enfim. Qual o objetivo do seu livro?
Retratar a realidade do índio desde o descobrimento do ponto de vista INDÍGENA. Nós já ouvimos por demais as versões dos portugueses e dos católicos, está mais do que na hora de fazer uma visão indígena do 'descobrimento'.
Mas você não é indígena e nunca pisou numa reserva. Como pode, então, saber o que os índios sofreram e sofrem?
Não é preciso ser um índio para saber que o que aconteceu nas Américas foi um genocídio cultural e social. Hoje nós vemos uma sociedade discutindo pelos direitos da raça negra, mas ninguém fala do índio. Eles são os donos deste chão e nós os tratamos como bonecos de teatro, parte do folclore. Além do mais, meu trabalho não é pautado simplesmente nas pesquisas, muito dele será uma visão pessoal e sentimental do descobrimento. Não sou um historiador, apenas alguém que deseja fazer com que os índios sejam ouvidos.
E a religião. Aonde ela entra em toda essa história?
É difícil falar de religião sem parecer ateu ou anti-cristo. A verdade é que, na época do descobrimento, a Igreja católica caminhava lado-a-lado com os Reis europeus. Aquele era um período da história em que acreditava-se que qualquer um que não fosse católico tinha como destino o inferno. Para seguir aos céus era preciso, segundo os ensinamentos da Igreja, tornar-se cristão e jurar fidelidade a Deus e ao Papa. Ao mesmo tempo, isso também significava que qualquer um que não fosse católico era um ser inferior (alguns chegavam a dizer que os negros não tinham sequer uma alma), e pronto para ser conquistado e subjulgado. Os jesuítas tiveram papel importante na saga do catolicismo no Brasil: o Império Portugalense dava duas opções aos indígenas: morte ou escravismo. O escravismo, por sua vez, vinha em duas formas: religioso e físico.
Peraí. Começamos com religião e você meteu escravismo no meio.
São duas coisas que, no fundo, tiveram o mesmo significado. Os jesuítas ofereciam aos índios a chance de sobreviverem, mas para isso eles deveriam abdicar de sua cultura e seus ideais e se tornar um católico praticante. Isso é uma forma de escravidão intelectual.
Então o seu livro critica a Igreja Católica?
Não. O meu livro critica a indústria do descobrimento como um todo, e a Igreja Católica fez parte dessa indústria. O continente americano era como um bolo enorme, e todos queriam tomar suas fatias... Certamente a Igreja tomou a sua.
E hoje, como os índios estão?
Pobres. Suas terras são cobiçadas por fazendeiros de todo o país, seus direitos são violados diariamente, não possuem escolas de respeito nem moradias adequadas (Alguns tentam viver como nos tempos do descobrimento, o que eu acho tolice. Os índios deviam evoluir por eles mesmos, e não tentar viver de uma forma arcaica sem necessidade - outros por sua vez simplesmente moram em casas de taipa ou tijolos, de baixíssima qualidade), não têm acesso a saúde (não estou falando de uma visita mensal do exército pra vacinar as crianças e constatar que todas estão desnutridas) e suas culturas vão desaparecendo com o tempo. A verdade é que aqueles que pesquisam a cultura indígena ainda pensam como europeus, não passam de novos jesuítas. Nenhum deles quer realmente ver os índios autônomos e com suas culturas preservadas, senão não transformariam suas palavras em caricaturas aportuguezadas e não ficariam tirando fotos ridículas de seus rituais pra mostrar aos amigos da cidade. "Olha, que índio rústico e maneiro. Vou alimentá-lo e levar uma foto dele para casa." Grande merda.
Cara, eu vou cortar isso na original.
Corta então, sua biba jornalística medrosa e capitalista!
Enfim. Alguma mensagem para os leitores sobre o seu filme?
Leiam. E pare de me fazer perguntas.
Muito bem, e assim se encerra a última (e primeira) entrevista deste blog, que será fechado assim que todos os poucos leitores que acompanham essa merda lerem a matéria. Obrigado.